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POR QUE AINDA NÃO CONSEGUIMOS INTERNACIONALIZAR NOSSA CIÊNCIA?

Inicialmente, mostrarei o que entendo por "publicar ciência" e "internacionalização", para evitar mal-entendidos desnecessários...

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Inicialmente, mostrarei o que entendo por “publicar ciência” e “internacionalização”, para evitar mal-entendidos desnecessários.

Publicar ciência não é necessariamente publicar pesquisa. Vamos entender isso. A pesquisa científica todos sabemos o que é. Pesquisa é a atividade de conseguir indícios que nos permitam responder a alguma pergunta. No caso da pesquisa científica, ela é a pesquisa que usa, para essa busca, o Método Científico. Para quem não sabe o que é o Método Científico e continua batendo na tecla dos “vários métodos”, sugiro fazer meu curso Entenda o Sistema Ciência e, depois dele, debruçar-se sobre a Lógica, a Filosofia da Ciência, a Epistemologia, a Ética, a Metodologia Científica, a Comunicação e a Prática da Ciência em bom nível internacional. Lembre-se de que nem tudo da Filosofia serve para a Ciência. Isso lhe trará todas as bases necessárias. Sei que não é simples, mas garanto que é complexo, profundo e adequado.

Mas qual a diferença entre pesquisa e ciência? Vasculhando textos de Filosofia da Ciência, você será inundado por histórias e fundamentações que indicam a importância de os cientistas fornecerem conhecimento sobre padrões e generalizações que vão além dos resultados obtidos. Isso não se consegue somente com deduções ou extrapolações. É necessária profunda fundamentação lógica, baseada também em outros conhecimentos científicos aceitos no momento e capazes de sustentar as expansões necessárias. Assim, seja na pesquisa qualitativa ou na quantitativa, esse é um requisito, mesmo que no Brasil isso soe estranho. E como seria isso na diferença entre pesquisa e ciência?

Ao fazermos uma pesquisa científica, chegaremos a uma conclusão. Quando ela é desenvolvida em condições muito controladas, como no caso de laboratórios, já traz certa universalidade pelo fato de poder ser reproduzida integralmente em qualquer laboratório que consiga as mesmas condições. Assim, a questão não é essa. A questão está nas pesquisas feitas em campo. Defino, neste caso, “campo” como situações em que o controle nunca será absoluto; por exemplo, pesquisas em um hospital, sobre dinâmica em uma empresa, sobre alunos ou professores em uma escola, em um bairro, em uma praça pública, sobre pessoas em cidades ou mesmo em um país, sobre fenômenos ambientais mais amplos, em qualquer bioma etc. Acho que já deve estar claro o que considero pesquisa de campo.

Quando ela é realizada, é evidente que traz uma resposta com implicações locais. Ou seja, o retorno local fica implicitamente garantido. Mas essa pesquisa local dificilmente será aceita em uma revista de amplo alcance internacional. Para publicá-la como ciência propriamente dita, deixando o caráter puramente local, o discurso apresentado não poderá ser local. Logicamente, a pesquisa estará no artigo, mas o que muda é o foco. O foco passa a ser o padrão, o perfil, a essência, a generalização ou o princípio subjacente à pesquisa local e que a fez funcionar naquela região específica. Esse foco é adotado porque a proposta é que ele possa ser utilizado em outros contextos, mesmo que não em todos. Mais ainda, isso é feito com a certeza de que tal aplicação requererá ajustes locais, evidentemente. Contudo, tais ajustes são mais fáceis de obter do que a ideia geral trazida no artigo.

Essa é a diferença entre publicar pesquisa (com foco local) e publicar a ciência contida na pesquisa local. O foco do artigo é outro. O principal motivo disso não é algo puramente acadêmico. É a percepção de que essa publicação ampliará imensamente o impacto social da pesquisa. E a pergunta que fica para quem não faz dessa forma é: por que não ampliar esse impacto quando isso é possível? Minha percepção é que a maioria sequer sabe disso. Quando se submete uma pesquisa local para publicação em uma revista internacional, ela frequentemente retorna com o comentário do editor de que se trata de uma pesquisa local e que deveria ser publicada em seu país de origem (por exemplo, no Brasil). Essa resposta tem sido usada por aqui para tentar justificar a existência de uma ciência local. Mas sequer foi conseguida a submissão de ciência para a ciência em nível internacional. Esse é um quadro que precisa ser compreendido.

Continuando, vamos entender o que significa a internacionalização de nossa ciência. Há uma diferença fundamental entre falar em ambiente do exterior e ambiente internacional. Todo país é exterior para os demais. Exterior não significa internacional no ambiente científico, embora muitos pesquisadores não saibam disso. No passado, muitos lutaram para incluir, nas revistas científicas brasileiras, artigos de pessoas do exterior, imaginando que isso internacionalizava a ciência. No início deste século, e mesmo antes disso, eu próprio não tinha clareza sobre essa questão e julgava artigos do exterior como um passo para a internacionalização. Porém, desde aquela época, eu já distinguia muito bem a qualidade dos periódicos, independentemente do país, embora todos víssemos que alguns países predominavam pela competência científica.

Mesmo assim, por exemplo, nos EUA e em outros países de destaque científico, havia revistas “caseiras” e revistas realmente internacionais. Quando se fala em ciência, o termo internacional ultrapassa o conceito clássico de limites geopolíticos, exceto em estudos específicos de relações internacionais, quando pertinente. Assim, uma revista científica na qual nossos estudos aparecem não será internacional apenas por ser de outro país. O foco dos estudos científicos internacionais está nos fenômenos que podem interessar a outros países, mesmo que não a todos. Tais revistas são aquelas nas quais cientistas, independentemente de seus países de origem ou de atuação, buscam publicar considerando o interesse científico.

Perguntem-se: quais são as revistas em que a maioria dos cientistas do mundo, em sua especialidade, gostaria de publicar? Perguntem-se também se existe alguma revista brasileira (de origem nacional e com domínio editorial no Brasil) que o mundo científico da área considere prioritária para a publicação de seus artigos. Esse cenário é exigente. Porém, o fato de não termos esse perfil não é o problema. O problema é não enxergarmos esse perfil, pois, sem isso, nunca chegaremos até ele.

Vejamos agora a estruturação formal do Brasil para construir ciência. Observemos os anos de início das principais estruturas governamentais que cuidam, apoiam e/ou financiam a ciência brasileira: CNPq (1951), CAPES (1951), FAPESP (1962–1965) e SciELO (1998). É um longo caminho. Começaram há cerca de 75 anos, foram reforçadas há aproximadamente 64 a 61 anos, sendo a SciELO a mais recente, com cerca de 28 anos. Não é equivocado dizer que existem há bastante tempo, ao menos tempo suficiente para compreenderem a ciência e refletirem melhor sobre ela.

Não cabe comparar com países em que isso remonta a períodos muito mais longos, pois quero entender o que ocorre em nosso país. Tempo tivemos. O mundo mudou, mas faz parte do processo ter agilidade para acompanhar essas mudanças, mesmo que a falta de tecnologia e recursos possa atrasar um pouco esse movimento. A mentalidade pode ser mais ágil. Contudo, penso que foi justamente ela que demorou a perceber e implantar mudanças necessárias.

Embora a metodologia SciELO tenha surgido com a intenção de aumentar a visibilidade da ciência nacional no mundo, falhamos em um ponto-chave: a qualidade da ciência produzida. Venho falando isso há muito tempo e, em formato de livros, desde 1998, mesmo sem conhecer claramente essa metodologia. Mas rapidamente identifiquei o ponto nevrálgico. Disse isso a muitos, inclusive aos responsáveis. Não faltou quem falasse; talvez tenham faltado ouvidos. Dispersar pelo mundo em inglês ciência com foco local ou mesmo equivocada seria dar um tiro no próprio pé.

Antes de traduzirmos nossos artigos para o inglês e, assim, divulgá-los, precisaríamos garantir aquela qualidade que realmente faz a diferença para a internacionalização mencionada anteriormente. Passei boa parte de minha vida tentando levar o que eu podia para reflexões sobre o fazer ciência em nosso país. Era difícil, mas muitos gostavam, a ponto de eu não conseguir acompanhar o número de convites que recebia. Mesmo assim, cheguei a aceitar taxas impressionantes de 60 a 80 eventos por ano, quase na totalidade em universidades públicas brasileiras, de todos os níveis e em mais de 100 cidades do país.

Isso mostra como o tema fazer ciência e publicar ciência foi bem acolhido em nosso território. As pessoas queriam aprender. Mas quem mais podia ensinar não era um professor, e sim orientadores, revisores de periódicos nacionais e seus editores. Alguns realmente se esforçaram. Muitos, porém, acomodaram-se à pesquisa local e divulgaram enfaticamente esse foco restrito, enquanto o mundo, cada vez mais globalizado, se nutria de ciência em bom nível internacional. E ainda vivemos essa carência até nos dias atuais.

A CAPES precisou modular gradativamente os requisitos de avaliação da pós-graduação para tentar conduzir os pesquisadores brasileiros em direção à ciência em bom nível internacional. O inglês foi uma barreira. Muito mais tarde, as taxas de publicação tornaram-se outra barreira (embora houvesse recursos; às vezes faltava qualidade ao artigo ou mecanismos legais para utilizar o dinheiro). Mas o problema central continua o mesmo: a falta de entendimento sobre o que é ciência e por que ela possui um método — que não é o mesmo de cem anos atrás, mas um sofisticado conjunto de dez itens básicos para quaisquer especialidades científicas.

Gradativamente também, dentro de um paradigma que vem governando boa parte da ciência, principalmente em nosso país, observa-se o aumento de questões não científicas sendo trazidas para a avaliação da qualidade científica. Tais ações visam a outros interesses, que não a produção de conhecimento confiável naquilo que a ciência consegue abordar.

Mas sigamos estudando para que, um dia, os cientistas brasileiros de alto reconhecimento internacional deixem de ser apenas poucas ilhas, existentes há muitas décadas, e passem a representar um percentual muito mais elevado e significativo da ciência produzida por brasileiros em nosso território nacional.

[Gilson L. Volpato]

 
 
 
 
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08 8. Métodos – parte 2 Em breve
09 9. Discussão Em breve
10 10. Introdução Em breve
11 11. Citações Em breve
12 12. Escrita – parte 1 Em breve
13 13. Escrita – parte 2 Em breve
14 14. Publicação Científica Em breve