Dentre as muitas dificuldades para se escrever um artigo científico, uma delas, e muito importante, está nos preparativos que antecedem a redação. Vamos examinar esse tema!
O texto científico é dirigido a cientistas que conseguem examinar a qualidade da pesquisa e da ciência desenvolvida. Isso é óbvio e condição sine qua non. Note que o primeiro crivo ao estudo está na análise do projeto. Passado por ele, vem o crivo dos autores para aceitarem as conclusões. Depois, temos o peer review na revista científica (triagem inicial). Finalmente, se publicado, vem o crivo dos cientistas que entendem do assunto do artigo e que ampliam enormemente o peer review da revista (de 2 a 3 especialistas para dezenas, centenas ou milhares). Esse é o processo que a ciência de alto nível exige antes de se propor e entrar na sociedade em geral. Por isso, a construção do artigo científico foca esses leitores e a busca por produzir ciência a partir da pesquisa realizada. Em minha estimativa, o entendimento disso, infelizmente, cabe a um baixo percentual da academia científica (talvez inferior a 10%).
O cenário acima mostra que o texto científico não é a publicação de "verdades científicas" para uso imediato. Ele é a proposta dos autores que será vista pelos profissionais, especialistas ou pessoas de áreas correlatas, que, de fato, entendem do assunto a ponto de julgá-lo até em detalhes. Será essa aceitação, se houver, que colocará as conclusões dos autores na ciência, ou não, desde que publicadas em periódico científico de boa qualidade.
A partir desse preâmbulo, considero que o texto científico deve mostrar os elementos de ciência que validam as conclusões, inclusive indicando que não há nada que possa não validá-las neste momento. Esse texto será, então, uma argumentação profunda sobre a validade das conclusões, pois elas são as respostas que os autores trazem sobre aquilo que investigaram. Para isso, as argumentações da Introdução do estudo são frequentemente menos decisivas para a validação das conclusões. Porém, a metodologia, os resultados e a literatura válida são os pontos cruciais que, associados a bons argumentos lógicos, validam as conclusões. Essa validação deve ser explícita no texto científico. Porém, escrevê-la requer dos autores grande clareza sobre esse discurso.
Será essa clareza que requererá dos autores compreensão de toda a história do artigo antes que se comece a escrevê-lo. Afinal, se algum referencial do artigo for alterado durante a redação, então argumentos poderão também ser modificados. Dentro desse processo, há dois itens fundamentais que exigem conhecimento prévio à redação. Um deles é a clareza dos objetivos e das conclusões, incluindo forte validade destas. Sem conhecer isso, de nada adianta iniciar a redação.
Como conseguir essa clareza? É natural que todos os autores suponham que conhecem muito bem a estrutura do artigo que escreverão. Porém, acreditem... isso não é verdade em grande quantidade de casos. Por exemplo, se os autores focarem na pesquisa e menos na ciência (e é preciso saber o que é isso), então o trabalho já poderá ser negado por falta de interesse científico. Considere os objetivos e as conclusões como dois alicerces importantes para iniciar a redação. Eles devem ser conhecidos com compreensão límpida e forte. E como conseguir isso? Vai aqui uma sugestão fundamental, que muitos não fazem, mas também que muitos não atingem o nível de expressão necessário.
Antes de dizer qual é esse caminho, informo que corrigir um texto com problemas de argumentação é muito mais difícil do que corrigir uma argumentação oralmente. Pegando carona nisso, a sugestão é corrigir primeiro o pensamento e depois seu efeito, que é a organização do discurso a ser apresentado. E como corrigir esse discurso? A proposta é que você faça exposições orais repetidas vezes ao longo de certo período (digamos uma ou duas semanas), indicando e justificando os pontos cruciais de sua argumentação. Resumidamente, isso poderia ser a exposição oral (não precisa ser em público; pode ser para as paredes da sala) das essências lógicas de seu estudo, como segue:
- Por que fez o estudo: indique as informações e os raciocínios necessários para que outros cientistas da área (ou correlatos) percebam que era mesmo necessário realizar esse estudo. Evite informações desnecessárias. Evite também argumentações fracas; por exemplo, justificar porque alega que não há estudos sobre o tópico (cuidado, pode não haver estudos porque o tópico não é de interesse). Então, mostre primeiro por que é necessário tal estudo e, depois disso, pode mostrar se há ou não estudos nele. É importante que o leitor se sinta motivado a querer acompanhar a solução do problema ou questão mostrada no artigo. Se isso não é relevante, então o leitor descartará esse artigo.
- A estratégia metodológica: mostre o delineamento do estudo, i.e., o plano teórico que guiará a montagem metodológica do estudo. Sem entender esse plano, dificilmente o leitor entenderá seu artigo e menos ainda terá condições de julgá-lo. Da mesma forma, os autores não conseguirão mostrar com a clareza necessária a complexidade metodológica usada, porque o delineamento é o plano macro dos detalhes que serão mostrados nos procedimentos metodológicos. Sem essa visão geral, será difícil até mesmo entender os resultados.
- Principais resultados: não apresente todos os resultados obtidos. Veja, entre eles, quais são os essenciais para as principais conclusões e apresente-os. Os demais serão detalhes que, nesta prévia, podem ser ignorados.
- Conclusões obtidas: restrinja-se às mais gerais, que são normalmente aquelas que envolvem mais do que os resultados, usando também conclusões presentes na literatura científica válida (que os autores não conseguem cientificamente negar e, portanto, que devem ser aceitas). Por exemplo, nunca exclua informações que contrariem seu estudo. Isso só pode ser feito se você trouxer a literatura ao estudo e, então, mostrar que ela é errada ou que não se adequa ao contexto da argumentação que você desenvolveu. Do contrário, deverá trazê-la e ajustar seu discurso.
- Argumentações que validam essas conclusões: mostre com clareza (às vezes, até com algum esquema simples) por que os autores aceitam essas conclusões, ou seja, indique as evidências e a lógica subjacente usada para validar os saltos cognitivos até cada conclusão mais ampla.
Essas apresentações devem conectar objetivos com metodologia, esta com resultados e tudo isso com a literatura, a ponto de validar as conclusões apresentadas. É necessário lembrar que as conclusões do artigo são as afirmativas que os autores apresentam à comunidade científica indicando que devem ser aceitas na ciência. Os leitores poderão aceitá-las ou não. Quando leitores importantes passam a aceitá-las, iniciam a fixação gradativa na rede de conhecimento conhecida como ciência.
Repita essa apresentação até que sinta clareza em cada ponto que falou. Será fácil detectar quando algumas de suas afirmativas não foram completamente justificadas. Você deve perceber isso. Pergunte-se sempre: por que isso que eu disse é correto? Por que outros cientistas devem aceitar?
Muitas vezes, essas apresentações são curtas (10 a 20 min cada) e podem atingir quantidades de 10, 15 ou 20 repetições. Você perceberá que esse tempo despendido não é perda de tempo; você ganhou dias na redação. Quando isso é muito claro para os autores, a primeira redação pode ser feita em 1 ou 2 dias (8 a 16 horas, em imersão). Depois disso, pequenos períodos podem ser usados para corrigir essa estrutura, checando a validade e a clareza (pense que os leitores não pensam como você). Uma vez que a lógica interna esteja coerente e adequadamente fundamentada, então comece a corrigir estruturas básicas de expressão (gramática e estilo científico — clareza, força argumentativa, ausência de falácias, síntese e fluxo para leitura). Se for escrito em imersão, não precisará de mais do que 2 a 4 dias para concluir o seu artigo. Os próximos artigos serão cada vez mais fáceis, a menos que a complexidade estrutural aumente desproporcionalmente em estudos futuros. A regra básica desta proposta é que quem guia a expressão escrita é o nosso pensamento. Quanto mais claro e sólido ele for, mais forte ficará o texto.
