Há algo de muito errado na formação de nossos cientistas quando percebemos os dramas que alguns, já na fase final do doutorado, exprimem sobre a redação científica. Por que falo isso? Vamos examinar quatro pontos abaixo.
1. Escrever um trabalho científico não é mais do que contar para outros cientistas sobre sua pesquisa e como chegou às conclusões. Isso equivale a relatar algo vivido, experienciado em seu cotidiano, um curto pedaço da sua vida. É um trecho extremamente focado numa pesquisa que deve ter tido objetivos e estratégias claramente definidas. Chegar às conclusões também envolve passos relativamente claros; mas estritamente claros depois que as conclusões estão definidas.
2. No percurso de uma pós-graduação stricto sensu, o estudante fez disciplinas que discutiam partes da ciência. Conviveu com professores relacionados ao tema do seu estudo. Leu ativamente muitas dezenas de artigos científicos publicados em revistas de renome internacional. Discutiu várias pesquisas. Participou ao menos duas vezes na confecção de projeto de pesquisa. Já foi autor de uma tese e de um ou mais artigos científicos. Teve a chance (aproveitada ou não) de conviver com cientistas e grupos de estudo internacionais. Estudou profundamente a área que ele próprio escolheu entrar. Teve orientador corresponsável pelo seus estudos e caminhar.
3. Teve oportunidades de assistir a cursos sobre escrita de trabalhos científicos. Pôde debater suas dúvidas com outros cientistas, de seu grupo ou fora dele.
4. Teve à sua disposição uma série de ferramentas facilitadoras da atividade científica. Por exemplo, nunca foi tão fácil buscar e encontrar artigos científicos espalhados pelo mundo. As correções de texto estão cada vez mais facilitadas com recursos computacionais. Hoje não se busca mais informações específicas para solucionar uma dúvida… se pede a resposta a um app, seja ou não ligado a IA. Sequer precisa saber boa gramática e ter vocabulário profundo em outro idioma para acessar o interior de artigos científicos.
O que ocorre é que, com tudo isso, muitos ainda não têm noção razoável para escrever um artigo científico ou uma tese. Há algumas questões que merecem ser refletidas. Por exemplo:
a) A formação educacional de base está muito fraca e as lacunas não preenchidas impedem compreensões mais sofisticadas e necessárias para o diálogo no meio científico de bom nível internacional?
b) O ensino de ciência no nosso país possui falhas conceituais que se tornaram costumes de áreas e não mais problemas a serem resolvidos?
c) A facilidade para alcançar níveis superiores de educação está se tornando um problema estratégico e não mais um facilitador social?
d) A realidade chegou e começa abalar o mundo imaginário construído sobre o estudo, a ciência e a resiliência?
e) As facilidades para seguir por caminhos ilusórios que encurtam o tempo e o esforço estariam privando estudantes de experiências necessárias?
Sejam quais forem os fatores, necessitamos corrigi-los.
Gilson Volpato
